terça-feira, 25 de novembro de 2008

Prêmio POST MAIS IDIOTA de novembro



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Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo de dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira.

[...] O assassino, durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um tiro na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça, local de representação da identidade individual.

Um crime onde não apenas a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega - o feminino.

[...] O que o seu assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle do corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher (a submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder sobre ela - base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder, é um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima, premeditado.

Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings, estabelecimentos comerciais, e agora na mídia.

Para Laura Segato é necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. [...]

O comandante da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no agressor por se tratar de "um jovem em crise amorosa", num reconhecimento ao seu sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente a sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?

(Grifos by Coisas de Idiota)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

33. Humor só acima de certa faixa salarial

Mostrar uma pessoa pobre e ridicularizá-la em público é "humor"?, pergunta o post mais insuportável já escrito numa língua indo-européia. É claro que é, sua monga. Se você só consegue rir de uma piada depois de saber quantos salários mínimos ganha a vítima da piada, você não faz nem idéia do que é humor – você está apenas sendo político, e no sentido mais ridículo da palavra, que é quando uma pessoa cria um blogue só para mostrar que tem tanta bondade e tolerância que mal consegue guardá-las dentro em um único coração, e que vai entregar para a polícia e dar sermão em qualquer um que demonstre um pouquinho menos de piedade pelos desfavorecidos.

Além disso, selecionar o que é ou não engraçado com base na renda é impraticável. Se for essa a sua opção de vida, é bom saber que nem sempre a escolha vai ser entre rir do mendigo que escorregou numa camisinha usada ou rir do Ricardo Mansur com uniforme de pólo sendo atingido no olho pela mesma camisinha usada, depois de o mendigo chutá-la para longe. Existem diferenças de renda mais sutis. Na maioria das vezes, você vai estar diante de uma situação engraçada e vai ter que decidir se ri ou não antes de saber quanto ganham os personagens envolvidos. Um dogueiro, por exemplo – não duvido que um dogueiro ganhe mais que o meu amigo que desistiu do exame da OAB e hoje instala programas de computador piratas para seus próprios parentes. Mesmo assim, eu ri muito quando esse meu amigo escreveu PUTA QUE PARIL num de seus e-mails 100% em maiúsculas, e comentei com todo mundo que eu conheço, "Mas que toupeira analfabeta, ele não percebeu até hoje que parir é um verbo". Se um dogueiro tivesse escrito PUTA QUE PARIL, eu não poderia dar risada? Seria preconceito? Eu precisaria antes me certificar de que o dogueiro ganha mais que o meu amigo mongo que provavelmente vai morar na casa dos pais até os 60 anos? Mas o dogueiro é o dono da van, é o dono da salsicha, é o dono dos meios de produção, enfim, enquanto o meu amigo depende da piedade de parentes até para pedir uma pizza. Agora já posso rir? Claro, imagino que o dogueiro se dedique mais ao trabalho que o meu amigo, tenha nascido numa família mais humilde e tenha mais cara de pobre, mas, se tivermos que estabelecer um critério juntando todos esses aspectos – renda, esforço, origem, aparência – antes de decidir se devemos rir ou não de uma piada, nada mais vai ter graça.

O grande truque está na pergunta Mostrar uma pessoa pobre e ridicularizá-la em público é "humor"?. Qualquer chato pode usar uma versão dela para transformar em crime uma piada sobre o Pitta (Então quer dizer que agora é bonito fazer "piadas" sobre negros?) ou sobre a boca da Karina Bacchi (Você acha então que artistas podem ser ridicularizados só pra nos fazer "rir", é isso?), sempre botando aspas de forma deliberadamente imbecil. Ao fazer esse tipo de questionamento, o anjo defensor de minorias e inimigo dos abusos da imprensa sabe perfeitamente que não é possível dar a única resposta honesta a essas perguntas ("Sim, , por que não?") sem parecer um monstro. Mais ainda, ele sabe que ninguém pode responder a essas perguntas como humorista, mas apenas como político, e aí ele vai estar sempre mais à vontade.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

32. Personalidade temática

O engraçado em escritores que não podem ver um espaço em branco num guardanapo usado que já aproveitam para fazer um poema ou que citam Joyce até para o moleque que só perguntou se podia dar uma olhadinha no carro, assim como o engraçado em cineastas que só abrem a porta de casa para pegar o jornal depois de vestirem uma camisa de filme do Tarantino ou que carregam um roteiro debaixo do braço até em festa de criança, sujando as páginas com o molho da carne louca, é que quanto mais força eles fazem para parecer escritores ou cineastas 24 horas por dia mais distantes eles ficam de realmente parecer escritores ou cineastas. Ou eles acham que Dante levava um bloquinho para anotar suas idéias sempre que ia tomar cerveja com os amigos, ou que sentia a necessidade de encaixar o nome de alguns romancistas numa conversa sobre futebol? Que Akira Kurosawa ia ver a mostra internacional de cinema de Tóquio usando uma camiseta roxa e curtinha com “John Ford” estampado? Escritores de verdade e cineastas de verdade não precisam ser escritores e cineastas quando estão no banheiro, quando estão na fila do banco, quando estão entrevistando a nova faxineira – e, mais importante, eles não precisam se vestir de escritor ou cineasta.

O mesmo vale para artistas

sábado, 8 de novembro de 2008

31. "Mas esse novo James Bond perdeu o charme, é só violência"

Ah, sei. Agora todos os fãs de Michael Moore e Bukowski, os eleitores de Ciro Gomes, os tomadores de caldinho de feijão com torresmo nos bares de jornalista da Vila Madalena, os saudosistas do Mangue Beat, todos eles de repente não conseguem mais respirar se não estiverem inteiramente cercados por charme.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

30. Filmes com Morgan Freeman

Deve ter algum filme, ou pelo menos algum trecho de filme, em que o Morgan Freeman não faça o papel de uma espécie de sábio, mas não consigo me lembrar. Ele é sempre o sujeito que, mesmo numa posição subalterna (mordomo, funcionário mais antigo da empresa, policial que já viu de tudo, plantador de melancias), aconselha de forma severa porém generosa qualquer um que passar pela sua frente durante o filme, e continua discursando até perceber que já é noite e todos o deixaram sozinho, com as portas do estúdio trancadas.

Isso não quer dizer que ele interprete sempre o mesmo papel, com se fosse o Peréio ou o Zé do Caixão, mas o fato é que você lê a sinopse do The Bucket List (“Carter Chambers é um homem casado, de vida simples, que descobre que tem câncer; internado, ele passa a ter como companheiro de quarto Edward Cole, um rico empresário que é dono do próprio hospital”) e sabe, simplesmente sabe, que não é bem o Jack Nicholson quem vai fazer o Carter Chambers. Além disso, você ficaria surpreso se o final do filme não trouxesse uma Grande Lição de Vida ao ganancioso empresário – mas traz, não se preocupe. Todo filme com o Morgan Freeman tem uma Lição de Vida, nem sempre grande (o que é bom), nem sempre no final (o que é ruim; pode ser durante o filme inteiro).

Parece que ele sofreu um acidente grave de carro, né? Essa não, e agora? Quem vai conseguir – com apenas um olhar – me condenar e ao mesmo tempo me perdoar pela escravidão nos Estados Unidos, pelo cinismo de uma sociedade que já não acredita em nada além da ética do lucro, pelas minhas mesquinharias, pela minha indiferença, por nunca ter feito nada, NADA?

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

29. Nojo do Orkut

...o que é perfeitamente compreensível, já que o Orkut é a personificação exata do Brasil dos meus mais sombrios pesadelos: todo mundo sem camisa, um gritando que bebe mais cerveja que o outro, rebocos de cimento nas paredes. Mas as pessoas que não perdem uma oportunidade de falar bem alto que só entram no Orkut duas vezes por ano, e ainda assim com um pregador de roupas no nariz, já faziam isso antes de ele ter virado esse ponto de encontro de atrações de circo. Aliás, antes de o Orkut existir essas mesmas pessoas já gostavam de dizer que só acessavam a internet quando eram obrigadas, por causa do trabalho ou porque era o único jeito de falar com sua mãe no Atacama; e antes de a internet existir, elas diziam que só viam TV quando passavam em frente ao quartinho da empregada e a porta estava aberta. É claro que existem infinitos motivos para desprezar o Orkut, a internet e a TV, mas só manifesta essa repulsa o tempo todo quem acha que sua imagem séria de cidadão respeitável e muito atarefado não pode ser associada a essas bobagens – o mundo real é um mundo de exigências e obrigações, cara. Mas, afinal, o que essas pessoas fazem de tão relevante enquanto não estão no Orkut? O que de tão inadiável elas estão fazendo que as impede de ler uma única piadinha enviada por e-mail? Estão ajudando velhinhas e mutilados de guerra a atravessar a rua, estão traduzindo Shakespeare, estão ensinando a jovens da periferia a importância de pronunciar o érre no final de palavras como "flor" e "favor"? Nada disso – elas estão lendo CartaCapital, estão se inscrevendo em palestras sobre como se sair bem em entrevistas de emprego, estão fazendo cursos de terapia da respiração. Sim, é essa a dura realidade que não aceita o artificialismo e a superficialidade do mundo virtual.

Então, desprezar o Orkut por quê, se você e ele se dariam tão bem juntos?