terça-feira, 28 de outubro de 2008

Prêmio POST MAIS IDIOTA de outubro

Parabéns, João Paulo Cuenca! Já aprendeu todos os cacoetes dos escritores-colunistas do Rio de Janeiro; agora só falta conseguir escrever algo bom, inteligente e/ou interessante.

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A tarde demora a cair. O sol castiga a cidade de Imperatriz, capital do Maranhão do Sul. Nas praças e calçadas, senhoras com vestidos até os calcanhares varrem a terra do chão com vassouras de palha. Desaparecem em nuvens de fina poeira vermelha. Alguém joga um balde d´água para ajudar a fixar a terra seca. A água quase evapora antes de encontrar o chão. O pó parece ser infinito.  

Elas não vão desistir.

Ontem à noite, do avião, vi o traço semicircular de uma boca aberta pegando fogo na planície do cerrado – parecia uma representação gigantesca do sorriso diabólico do gato louco, amigo da Alice nos livros do Lewis Carroll. Mas esse não é nenhum país das maravilhas, e a boca incandescente passa longe da metáfora. Em outubro desse ano, foram doze mil focos de queimadas no estado. Na escada do avião, a cidade me recebeu com um bafo quente de cheiro de incêndio. Faz sentido que aqui não exista horário de verão.  

Não há mar em Imperatriz, mas nela há algo de cidade portuária. A BR-010, Belém-Brasília, passa pelo meio da cidade, um entroncamento entre rodovias e destinos nas entranhas do país. É um entreposto rodoviário, com gente de toda a parte. Meu quarto é o único disponível no Hotel Presidente, ainda que não veja ninguém nos seus longos e silenciosos corredores de hospital.  

Na Avenida Beira-Rio, fronteira do estado à margem direita do Tocantins, até o repentista que nos vende improvisos respira política na tarde em que a tarde demora a cair. As disputas entre o clã dos Sarney e “o resto” são lembradas, veladamente ou não, a todo momento. E aí acontece da conversa subitamente mudar de tom: fala-se baixo, olha-se para os lados.  

No distante oeste do Maranhão, há desconfiança entre nós, os conspiradores.  

É quando o povo hospitaleiro e generoso da cidade me diz que Imperatriz não é só pistolagem, como falam por aí. Que os crimes de encomenda são coisa de um passado distante da Princesa do Tocantins, assunto de tempos em que essas plagas eram conhecidas como “faroeste brasileiro”. Em dias como esses, em que as ruas e as escolas da cidade estão tomadas por livros e pelo sorriso aberto das crianças, eu não teria porque deixar de acreditar.  [...]

Enviado por João Paulo Cuenca
(Grifos by Coisas de Idiota)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

28. Fascínio por grafiteiros e motoboys

Abrindo meus olhos para a realidade

Nunca entendi a revolta de parte dos grafiteiros contra seus colegas que conseguem expor desenhinhos em galerias e museus, já que o universo temático de todo grafite metido a arte (variações sobre câmeras de vigilância, código de barras, capitalista na porta do hospital que pergunta "débito ou crédito?" a uma mulher segurando o filho doente pela mão) é o mesmo usado por qualquer expositor-de-bienal caricato, de quem os grafiteiros ingenuamente se acham o completo oposto. Mas deve ser porque o grafiteiro anti-museu sabe que, assim que seus rabiscos perderem o status de contestação e marginalidade, eles vão passar a ser julgados pelo que realmente são, e não pelas fantasias sobre arte de rua que inspiram em idiotas – e aí, é claro, o grafite vai levar a pior, mesmo se comparado aos retratos do Roberto Camasmie ou às bandeirinhas do Alfredo Volpi (que, além de serem só desenhos de bandeirinhas, ainda conseguem ser desenhos ruins de bandeirinhas). É por esse mesmo motivo que os grafiteiros podem estragar a cidade inteira com desenhos cuja autoria seria renegada até por um bugio lobotomizado; podem pintar figuras de meninos de rua até na parede do lavabo do governador; podem pichar um terceiro mamilo na estátua do Duque de Caxias; mas nunca vão deixar de gritar "opressão! nossa arte é valorizada no exterior e marginalizada em nosso próprio país!" quando a prefeitura apagar sem querer (infelizmente) o grafite de algum desses poetas urbanos num murinho qualquer. Eles repetiriam aos berros que são artistas marginais mesmo se contassem com o apoio financeiro do Partido Republicano, porque sabem muito bem que, quando esse discurso não colar mais, voltarão a ser só um bando de maus desenhistas.

Cansei de ver gente apostando que o grafite em breve vai ser considerado arte de adulto – mas eu apostaria que não, e apostaria dinheiro. Posso estar errado, e testemunhar o dia em que o Louvre entregará a Mona Lisa nas mãos d'osgemeos para eles atualizarem a obra, espalhando aleatoriamente pela tela imagens de iPods e de PMs violentos. Mas esse não vai ser o dia da elevação do grafite ao nível do Louvre, e sim o dia do rebaixamento do Louvre ao nível de algo que eu não usaria nem para adubar ervas daninhas.

Uns anos atrás esses bocejantes osgemeos ganharam uma exposição numa galeria de arte, e os segundos cadernos que eu li na época celebraram o nobre espaço conquistado pelo grafite e também o aumento de público que a mostra provocou na galeria. Dois equívocos aí. Primeiro, as galerias de arte de São Paulo não são propriamente conhecidas por seu alto grau de exigência; segundo, que o aumento de público só mostra que quanto mais o nível baixa mais gente se interessa – se osgemos dobraram o público da Fortes Vilaça (cujo dono conseguiu a proeza de se chamar Baixo Ribeiro), imagine a retrospectiva fotográfica Marriete e Silvinha - Do Viva a Noite à Eternidade, o que não seria menos artístico do que qualquer grafite premiado.

Pessoas que gostam de grafite também são fascinadas por motoboys, por algum motivo inexplicável, e adoram falar que "Grafiteiros e motoboys são os maiores símbolos de SP" para se passarem por perigosos freqüentadores de becos e vielas, o que é tão ridículo quanto o fotógrafo que vai a Paris e só consegue enxergar os varredores de rua argelinos; por mais que jure que suas fotos são uma forma de denúncia, ele não percebe o quão passivamente mulherzinha fotografar árabes durante trabalho braçal soa. Eu aceitaria de bom grado ouvir "Grafiteiros e motoboys são os maiores símbolos de SP", mas desde que da boca de alguém que estivesse no aeroporto, justificando sua mudança para outro continente – "qualquer outro continente", enfatizaria ele à mocinha no balcão de passagens.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Idiotas à primeira vista (7)

sábado, 11 de outubro de 2008

História da Idiotice, A (capítulo 1)


Nossa, que perigo


MANIFESTO CONCRETISTA (1956)

- a poesia concreta começa por assumir uma responsabilidade total perante a linguagem: aceitando o pressuposto do idioma histórico como núcleo indispensável de comunicação, recusa-se a absorver as palavras como meros veículos indiferentes, sem vida sem personalidade sem história - túmulos-tabu com que a convenção insiste em sepultar a idéia.

- o poeta concreto não volta a face às palavras, não lhes lança olhares oblíquos: vai direto ao seu centro, para viver e vivificar a sua facticidade.

- o poeta concreto vê a palavra em si mesma - campo magnético de possibilidades - como um objeto dinâmico, uma célula viva, um organismo completo, com propriedades psicofisicoquímicas tacto antenas circulação coraação: viva.

- longe de procurar evadir-se da realidade ou iludi-la, pretende a poesia concreta, contra a introspecção autodebilitante e contra o realismo simplista e simplório, situar-se de frente para as coisas, aberta, em posição de realismo absoluto.

- o velho alicerce formal e silogístico-discursivo, fortemente abalado no começo do século, voltou a servir de escora às ruínas de uma poética comprometida, híbrido anacrônico de coração atômico e couraça medieval.

- contra a organização sintática perspectivista, onde as palavras vêm sentar-se como "cadáveres em banquete", a poesia concreta opõe um novo sentido de estrutura, capaz de, no momento histórico, captar, sem desgaste ou regressão, o cerne da experiência humana poetizável.

- mallarmé (un coup de dés-1897), joyce (finnegans wake), pound (cantos-ideograma), cummings e, num segundo plano, apollinaire (calligrammes) e as tentativas experimentais futuristasdadaistas estão na raiz do novo procedimento poético, que tende a imporse à organização convencional cuja unidade formal é o verso (livre inclusive).

- o poema concreto ou ideograma passa a ser um campo relacional de funções.

- o núcleo poético é posto em evidencia não mais pelo encadeamento sucessivo e linear de versos, mas por um sistema de relações e equilíbrios entre quaisquer parses do poema.

- funções-relações gráfico-fonéticas ("fatores de proximidade e semelhança") e o uso substantivo do espaço como elemento de composição entretêm uma dialética simultânea de olho e fôlego, que, aliada à síntese ideogrâmica do significado, cria uma totalidade sensível "verbivocovisual", de modo a justapor palavras e experiência num estreito colamento fenomenológico, antes impossível.

- POESIA-CONCRETA: TENSÃO DE PALAVRAS-COISAS NO ESPAÇO-TEMPO.

(publicado originalmente na revista ad - arquitetura e decoração, são paulo, novembro/dezembro de 1956, n° 20)

(Grifos by Coisas de Idiota)

domingo, 5 de outubro de 2008

27. Apontar para o amigo na foto

Como os dois aí de cima têm toda a cara de quem nunca se cansa de estímulo intelectual e adora botar o cérebro para trabalhar, proponho a eles um bastante simples exercício de imaginação. Façam um esforço e imaginem que suas mãos tenham ficado de fora da foto. Por acaso ficou mais difícil enxergar algum dos dois? Suas feições suaves e delicadas de repente se tornaram impossíveis de distinguir desse elaboradíssimo cenário de fundo, provavelmente um salão do Hermitage?

Pois é. Infelizmente para todos nós, vocês continuam bem visíveis, com ou sem os indicadores apontando um para o outro. É melhor baixar os dedos e poupar suas energias para, sei lá, cutucar o nariz – mas calma, calma, esperem até a câmera se afastar.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

26. "A Missão"

Pelo que eu entendi, funciona assim: sempre que se fala da continuação, repetição ou imitação de alguma coisa, alguém realmente muito engraçado vai acrescentar algo como "Rango 2: A Missão", "Mac x PC 2: A Missão", "Lula 2: A Missão" ou "Queimadura de Chimarrão 2: A Missão". É umas dessas piadas que nunca fizeram ninguém rir e que mesmo assim continuarão sendo contadas, pelo menos enquanto houver idiotas caminhando sobre a Terra, como aquela de falar que quem paga a conta é quem sentou na ponta da mesa.