quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Prêmio POST MAIS IDIOTA de setembro

Parabéns, Ferréz!

O Lançamento foi em julho de 2000, no salão não cabia mais gente, era um mar de comunidades para ver o livro Capão Pecado ser lançado.
Amigos, desconhecidos, parentes, gente vinha de todos os lugares para prestigiar o primeiro livro retratando o Capão Redondo, suas tretas e suas alegrias, tudo romanceado por um menino que sonhava em ser escritor.
O que passei para escrever o livro, virou história do passado, as tirações, piadas, se for lembrar mesmo dá raiva, mas hoje posso entender, com tanta baixa estima, desemprego, fome, tiro, falar de literatura era coisa de louco mesmo.
bom, depois de oito anos o sonho continua, o Capão Pecado está chegando em todas as escolas esse mês, pelo ministério da educação, FNDE. [...]
São 25.000 livros, imagina quantos muleques vão passar as mãos pelas páginas que escrevi, loko pra carai, pra quem me falou que eu tava chapando, agora é capaz de pegar o filho lendo o trampo.
Umas pessoas que foram retratadas, gente que passou desta, sem deixar vestígios, a não ser no livro, uma época que deixou saudade, nada de crime organizado.
A quebada mudou muito em 8 anos, agora temos sarau, temos gente que nos ouve, temos vários escritores, poetas, e rimadores em geral,e tudo isso é nosso porra! Num foi ganhado, foi tomado, de um em um menino, de uma a uma menina, que via nos nossos versos algo pra se espelhar. Isso dá um orgulho monstro, e quando passo pelo que estou passando eu me agarro nisso tudo e penso em ir mais a frente, sabe porque? por que não tem mais limite, agente descobriu isso, e agora fudeu.
Se isso não revolução, o que é?
esses dias trombei o Zóião, um amigo aqui da favela Santiago, que cresceu comigo.
ele chegou da escola, comprimentou todo mundo que estava na roda e já foi falando.
- Num é tiração? Eu vou pra escola, e o livro que agente vai estudar é desse cara aqui, num basta isso, e eu falo pra professora, que ele é meu amigo, e que vive na favela lá com agente, e ela saiu rindo, falando pra eu parar de mentir.
Não é mentira não professora, agente que escreve a literatura marginal, somos feitos de FAVELA.

Ferréz/num frio montro, mas aquecido pelas páginas da vida.


(Grifos by Coisas de Idiota)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

25. Banheiro vs. e-books

Não tenho a menor idéia de qual é o futuro das publicações impressas, não sei se as pessoas algum dia vão preferir ler tudo na tela do computador ou não, mas por favor não diga que o e-book ou algo parecido está fadado ao fracasso simplesmente porque a humanidade sempre vai preferir levar livros ou jornais para ler no banheiro. Vamos lá, deve haver um argumento melhorzinho. Sem falar que essa tese faz qualquer um involuntariamente visualizar você sentado no vaso, de calças arriadas e lendo uma antologia de crônicas bem-humoradas da Danuza Leão, ou mais um contundente artigo do Sérgio Augusto sobre as eleições americanas no Estadão, e se você não quer que isso aconteça, tenha certeza de que ninguém mais quer.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

24. Raiva dos bandeirantes

Bu!

As cabecinhas bem-pensantes desta cidade adoram deixar bem claro que, passados mais de 300 anos, ainda não perdoaram os bandeirantes – especialmente pela violência que usaram contra as populações coitadinhas com quem eles cruzaram ao avançar pelo interior mais repelente do país. Qualquer pessoa nascida em São Paulo que more num lugar um pouquinho melhor que um cortiço se sente uma espécie de beneficiária da herança criminosa dos bandeirantes e, como forma de expiar a culpa originada por esse privilégio, sai por aí denunciando em discursos explosivos os massacres contra índios e castelhanos, que não devem nunca ser esquecidos. Mas toda essa preocupação estampada aí na sua cara de humanista é exagerada, eu garanto. Primeiro, aposto que entre os mais emocionantes feitos protagonizados por seus antepassados imediatos ou remotos – participar da maior greve de tecelões da década de 20, ver um show do Chico da época da ditadura, atravessar o Atlântico para aqui abrir uma mercearia – não existe o registro de nada que sequer se assemelhe a uma bandeira. E depois, mesmo que seja difícil perdoar os responsáveis por trazer o Mato Grosso para o território brasileiro, lembre-se de que poderia ser pior – sem isso, o Mato Grosso poderia ser, hoje, mais um pedaço de terra habitado por gente que fala espanhol. Como se vê, os bandeirantes deixaram um legado virtuoso não só para o Brasil, mas para o mundo, para a humanidade.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

23. Mulheres como desculpa

Warren Beatty, Porfírio Rubirosa, Errol Flynn, cada um deles levou para a cama um número de mulheres superior ao total de mulheres que já pegaram metrô e ônibus junto com você em toda a sua vida, e eles jamais se rebaixariam a sequer saber pronunciar sordidezas como forró, show da Ivete, livro do Leminski, violão clássico, Djavan, barba desenhada à laser, exposição de fotos de moradores de rua, cachorrinhos; portanto, na próxima vez em que você inventar de passar o carnaval em Salvador, ter aulas de dança de salão, ver uma mostra de fotografia no Itaú Cultural, passear com o seu pug de estimação, ou for flagrado comprando uma coletânea de poesia de vanguarda, não tente justificar dizendo que tudo isso faz parte da sua infalível estratégia para atrair as mulheres, como se você fosse uma espécie de Casanova com sotaque mooquense, e reconheça que está apenas cedendo às imperiosas determinações do seu mau gosto.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Idiotas à primeira vista (6)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

22. "Laços"



Se alguém tentasse assistir ao vídeo com óculos 3D, sentiria os perdigotos do ator principal respingarem em sua cara. Mas algumas sessões com a fonoaudióloga não seriam suficientes para deixar esse curta menos embaraçoso. Basta ver os comentários sublimes de quem teve o desplante de elogiá-lo – "obrigado por me fazer chorar" ou "assistir a esse curta foi como sonhar com o paraíso e, ao acordar, descobrir a pena da asa de um anjo debaixo do travesseiro" – para perceber que essas pessoas queriam tanto ficar emocionadas, que já estavam segurando o coração e enxugando os olhinhos antes mesmo de apertar o play. O curta grita "eu sou sensível! eu sou poético!" a cada cena mal ensaiada, a cada fala cheia de saliva, e não foi à toa que um dos maiores elogios a ele partiu do Elio Gaspari, um sujeito que dorme em cima das cartas trocadas reservadamente por Geisel e seu secretário particular. Para alguém que, há 115 anos, escreve duas vezes por semana críticas à privatização e comparações pretensamente irônicas entre JK e Lula ou Fernando Henrique, o videozinho parece uma oportunidade dourada de mostrar que nunca vai deixar morrer sua alma de poeta e que está antenadíssimo com tudo de melhor que essa nossa juventude com as emoções à flor da pele está aprontando – mesmo que seja essa juventude com dicção ruim, cabelo ridículo e roupa dois números abaixo do recomendável.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

21. Paulo César Peréio

Ele fala “porra” o tempo todo, né? Puxa, que loucura, que vontade de conversar horas sobre isso.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Só vai dar idiota (3)

O paralelo entre a palavra "foice" e a conjugação verbal "foi-se" é um dos pontos de partida para a obra "fodasefoice", que Nuno Ramos dispôs no galpão Fortes Vilaça, na Barra Funda, em exibição a partir de amanhã, dia 30. Além da semelhança fonética, pode-se ler na foice a mesma idéia de morte e partida que há em foi-se. Desse âmbito semântico, Ramos criou uma performance – apresentada neste ano na Funarte de Belo Horizonte – em que duas mulheres movimentam foices entre duas caixas de som, de onde uma voz diz, alternadamente, "foda-se" e "foice". O vídeo da encenação, realizado por Cao Guimarães e Beto Magalhães, completa a instalação formada por esculturas de vidro, pedra e misturas líquidas, como petróleo e Coca-Cola, glicose e formol, vinho e vinagre.

(Grifos by Coisas de Idiota)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

20. Coleção de relógios

Mas que forma lúdica de expressar a sua individualidade, seu eu profundo, tudo o que existe de único e idiossincrático na sua pessoa. Uma coleção de relógios, como se sabe, é o espelho da alma de seu dono – é possível distinguir um fã da Omega e um fã da Seiko só pelo jeito de andar, e diferenciar quem tem preferência por relógios de bolso de quem gosta de divers apenas pelo modo de sorrir. O colecionador de relógios tem uma personalidade tão fascinante e enigmática quanto a do colecionador de latinhas de cerveja do mundo todo ou a do colecionador de carros antigos – em alguns casos de aguda sensibilidade, essas três paixões podem se manifestar na mesma pessoa. Sorte.